Bissexualidade Social

Há umas semanas atrás me deparei com um conceito de bissexualidade que não se coloca explicitamente na sociedade, é uma modalidade de bissexual extremamente comum, porém velada. É uma espécie de armário de extensão limitada.

Essa expressão (meramente didática que excedo a licença poética para criar) pode ser compreendida de duas formas: que a bissexualidade em alguns casos só existe dependendo da pessoa com quem se está envolvido – seria o caso do homem que ao beijar uma mulher, torna-se hétero e a compreensão de que a bissexualidade de algumas pessoas se limita a profundidade do relacionamento que estas estão envolvidas. Nesse caso, me refiro a segunda compreensão, até porque em meu entendimento, a primeira compreensão é um mero preconceito que busca deslegitimar a sexualidade das pessoas bissexuais.

A bissexualidade seletiva ou também gosto de chamá-la de bissexualidade social, termo um pouco mais jocoso, é aquela que visualiza a sexualidade, nesse caso, não como algo a ser levado a sério e se esconde atrás de um discurso de liberdade de corpos e desejos que muitas vezes esconde um pensamento homofóbico e, sob o enfoque de mulheres bissexuais, machista.

Trata-se de pessoas que são bissexuais em festas, em encontros sociais, em diversos contextos, que sentem atração física e sentimental por pessoas do mesmo sexo e do sexo oposto, no entanto, para consideração de um futuro ou de um relacionamento sério, consideram apenas pessoas do sexo oposto.

Considerando o preconceito estruturante da sociedade, não há muita dificuldade em compreender onde se encontra a homofobia nessa construção, nem mesmo porque chamei em certa medida de “armário”. Enquanto mulher, gostaria de apontar porque percebo essa lógica claramente machista ao se tratar de mulheres bissexuais. Nesse caso, a dificuldade não está na vergonha de se assumir sexo diversa, ou no pensamento de que para as outras, beijar e transar com mulheres seja um determinante de sexualidade, mas para a pessoa que seletivamente determina até onde vai sua bissexualidade, nesse momento, foco no quão opressor é mulheres objetificarem outras de modo tamanho. Nessa construção, a mulher torna-se apenas fruto de prazer e é reservado para o homem o papel de protagonista de um relacionamento sério.

A bissexualidade social caracteriza, em certa medida, mulheres reproduzindo práticas de objetificação que os homens tanto mantêm. É a visão de que no escuro da balada, ou sob a justificativa do álcool ou da libertação de pensamento é normal estar com outra mulher, mas levá-la para sua vida privada, apresentá-la para sua família e com esta construir uma família é sério demais para uma mera brincadeira de ser sexo diversa.

O “assumir” ser bissexual é, mais do que nunca, um ato político, o discurso “eu pego meninas, mas não namoro” tem um papel fundamental como deslegitimador da bissexualidade daquelas que afirmam, sem medo que namorariam com outras meninas, esse discurso vem para reforçar a visão preconceituosa de que a bissexualidade não existe, sendo esta um mero estágio para a mulher reconhecer-se lésbica, uma vez que o bi está guardado apenas para a fase em que não se procura algo sério.

O problema não é a sociedade encarar o bissexual como perversidade sexual, até porque ninguém disse que isso deve ser uma característica ruim, o problema é ser desacreditada em função desta visão, ser vista única e exclusivamente como passatempo para outras mulheres. É uma realidade cruel para mulheres que são em sua medida objetificadas todos os dias por homens, companheiros de luta. E algo que vale para todas as opressões na esquerda que às combate é a compreensão de que dói milhões de vezes mais e que mais enfraquece a luta quando realizada por alguém que possui debate e constrói o respeito a minorias.

No entanto, vale ponderar a blindagem que me coloco graças a meu local de fala, essa defesa pelo assumir-se bissexual é levada sem radicalismo, uma vez que deve-se considerar contextos pessoais, é muito fácil para mim, que me escondo na segurança financeira e física de um lar de classe média exigir o rechaçar de um armário que pode muitas vezes servir para a proteção ou, até mesmo pelo medo do acúmulo de opressões. Claramente, é muito mais fácil para mim, enquanto mulher, não-negra, de aparência padrão assumir-me bissexual do que para uma mulher que se identifica com o exato oposto e vive outras áreas de sua vida com uma postura de compensação, aquele velho estigma “é mulher, negra e ainda é bi?”. O acúmulo de opressões é um medo não somente da esquerda, mas de nossas famílias, de nossos amigos.

A reflexão vem reconhecer que as justificativas que nos damos e as escolhas que fazemos para fugir de nossas padronizações são belas quando assumem um viés libertário, mas o libertário pode, diversas vezes, propagar machismos e homofobias.

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